King Arthur Pendragon RPG

Sendo um fã dos quadrinhos do Príncipe Valente (ainda tenho mais de 10 volumes da velha coleção da Ebal), eu cresci fascinado com os mitos arturianos.

Principe Valente

No entanto, jogando RPG nunca realmente mergulhei nas histórias daquela época. É aí que entra o Rei Arthur Pendragon RPG, um sistema de RPG da década de 1980, feito por Greg Stafford – um cara que era fascinado pelos mitos de Arthur.

Pendragon capa

Recentemente o RPG teve relançada sua versão 5.2. Essa edição é baseada na versão lançada na Espanha, com ilustrações e diagramações melhores e algumas poucas correções em relação à versão 5.1.

Adianto que é uma edição muito bonita, com um estilo clean.

A questão é: o que um velho clássico pouco conhecido do RPG tem ainda a mostrar?

A análise do jogo vai se dividir em três partes: História, Personagens e Tramas.

História

King Arthur Pendragon RPG lida com as lendas da maior das histórias de cavalaria: a Saga do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Um mundo cheio de cavaleiros e damas, magos e bruxas, castelos e espadas mágicas e, principalmente, aventuras.

A Introdução explica que o Rei Arthur do RPG é baseado nos contos de literatura medievais e que as histórias de Pendragon se passam no fim do século V e início do VI, entre o fim do Reinado de Uther Pendragon e a morte de Arthur. Não é o Arthur mais “realista” dos livros de Bernard Cornwell. Está mais para o filme dos anos 1980, Excalibur.

O Capítulo 1: O Reino de Pendragon descreve os reinos da ilha da Grã-Bretanha e a situação da Europa em 485 a partir da perspectiva de um cavaleiro da região sul das ilhas Britânicas.

O Império Romano abandonou as Ilhas Britânicas. Constâncio, filho do Imperador Constantino, foi morto e Vortingen, um tirano, assumiu o trono. Para enfrentar as invasões de pictos e irlandeses, Vortingen contratou um exército de mercenários saxões. Esses acabaram traindo o rei, matando quase toda a liderança britânica. Aurelius Ambrosius, segundo filho de Constantino, invadiu a ilha. Seu estandarte era um dragão vermelho. Ele venceu Vortingen e os saxões e se tornou o Alto-Rei ou Pendragon. Mas em 480, ele foi traído e morto. Seu irmão, Uther, se tornou o rei. É nesse ponto, durante o reinado de Uther Pendragon, que começam as campanhas em Pendragon RPG.

Mapa 480.jpg

Além disso temos uma explicação do feudalismo, suas classes, costumes e leis. As informações do capítulo são o conhecimento comum que todo personagem teria e são retiradas de fontes literárias e históricas. São apresentadas as fichas de Uther e Merlin e as histórias de alguns personagens que seriam conhecidos pela sua fama.

Personagens

Pendragon é um RPG sobre cavaleiros saídos das sagas de Arthur. A criação de personagens (Capítulo 2) descreve as regras para criar cavaleiros, que são a única classe jogável. Não há PCs magos, ladrões ou bárbaros em um jogo de Pendragon RPG. Isso, no entanto é parte da proposta do jogo e serve para criar uma trama que emule os épicos medievais.

Os PCs serão escudeiros da região de Salisbury, com 21 anos de idade, prontos para prestarem o juramento e se tornarem cavaleiros.

Prince Valiant 04
Ficha de Personagens

Na edição 5.2 de Pendragon, todos os personagens são de Salisbury, um dos condados da região de Logres.

Eles podem ser cristãos britânicos, cristãos romanos ou pagãos. A religião influencia os Traços de Personalidade (Personality Traits) do personagem, que são 13 pares de características  que sempre se opõem (Forgiving vs Vengeful, Prudent vs Reckless). A soma de duas características opostas é sempre 20. Ou seja, se o personagem tiver 15 em Merciful, ele terá 5 em Cruel, a característica oposta.

Além disso todo cavaleiro tem Paixões. Ele inicia com cinco: Lealdade, Amor, Hospitalidade, Honra e Ódio aos invasores Saxões. Além disso pode adquirir outras durante o jogo.

Traços de Personalidade e Paixões representam, portanto, a personalidade do personagem. Como ele se comporta e quais seus objetivos de vida.

Depois, vem a decisão sobre os cinco Atributos físicos do PC: Tamanho, Destreza, Força, Constituição e Aparência. Uma alta Aparência, por exemplo, dá ao cavaleiro algumas características distintivas, que o destacam dos demais. Curiosamente, não existe um atributo para inteligência, pois o valor de um cavaleiro medieval era medido mais pela sua personalidade e habilidades do que pela inteligência. Como diz o livro: o dever de um cavaleiro é agir, não pensar.

As Perícias (Skills) definem no que ele foi treinado – especialmente em combate. Um cavaleiro da região de Salisbury já começa com algumas perícias graças ao tempo que passou como escudeiro.

Por fim, os detalhes finais (como características distintivas, escudeiro, glória, cavalos e o desenho do escudo), além de definir a Família do personagem. Parece complicado, mas é basicamente seguir a primeira página da ficha de personagem (que tem apenas 2 páginas).

Detalhe: o livro sugere que o jogador depois deve fazer um segundo personagem da mesma Família, para o caso do primeiro morrer ou ficar ferido e não poder participar da aventura. Por fim, o capítulo discute o papel das mulheres nos contos arturianos e como incorporar uma personagem feminina na trama.

Além de criar seu personagem, o jogador deve criar a história de sua família (Capítulo 3: Família e Terra Natal). É bom marcar uma sessão só para essa parte. Ela é importante para criar a trama do jogo e dar profundidade aos personagens. Em conjunto com o narrador, os jogadores jogam pelos acontecimentos das vidas de seus avôs e pais. O processo lembra o que ocorre no RPG de Guerra dos Tronos, em que os jogadores também precisam criar a história da Casa.

Os ancestrais podem ganhar Glória e Paixões, lutar heroicamente ou morrer nas guerras contra os Saxões. O jogador herda parte da Glória do seu pai e também pode herdar algumas das Paixões, como Ódio dos Saxões, por exemplo. Ao final do processo, todos os jogadores terão uma história detalhada dos feitos de seus antepassados durante os tumultuosos anos após a retirada do Império Romano das Ilhas Britânicas até a ascensão de Uther Pendragon.

O resto do capítulo permite criar os outros npcs que serão a família do Cavaleiro e dá mais detalhes sobre o Condado de Salisbury e a Cidade de Sarum, onde a história começa. Também fala sobre viagens e castelos.

O Capítulo 4: Estatísticas e Perícias detalha as regras que governam o uso das Características, Paixões e Perícias.

O Sistema

Pendragon RPG usa um sistema baseado em um única jogada de um dado d20. O jogador joga um d20 com o objetivo de tirar um resultado igual ou menor do que o valor da estatística testada do jogador. Quanto mais alto, desde que não supere o valor da [Perícia, Atributo, Traço de Personalidade ou Paixão], melhor. O ideal é tirar um valor igual ao da característica testada. Isso porque um sucesso crítico ocorre quando o jogador tira um resultado no dado igual ao valor da estatística testada.

Ex: Val ataca com sua espada. Ele joga contra sua Perícia 15 em Espadas. Com 12 ou 14, p. ex., ele acerta. Com 15, é um acerto crítico! Já com 16 ou mais, ele erra.

Prince Valiante 07

Pendragon se divide em uma fase de Aventuras e uma fase de Inverno. A fase de Aventuras é a fase normal de uma partida de RPG, se passando durante a sessão de jogo, em que os personagens participam de uma busca, guerras são travadas e Glória pode ser ganha.

O Inverno é a época de descanso, treinamento, recuperação das feridas, cuidar do feudo e da família. É quando os jogadores gastam a Glória adquirida.

Prince Valiant 06

Cada Aventura dura, idealmente, uma sessão. Dessa forma, uma das características de Pendragon é que uma campanha irá ocorrer em um período de jogo de muitos anos, com os personagens evoluindo e crescendo e sendo, eventualmente, substituídos por seus herdeiros. Isso também facilita lidar com ausências eventuais de jogadores. Seus personagens não participarão de aventuras naquele “ano” (sessão) pois estão cuidando de outros afazeres em seus feudos ou talvez estejam doentes ou em outra missão para o lorde.

Além disso, com o passar das Aventuras e Invernos, os personagens evoluem e eventualmente PCs irão morrer e ser substituídos por outros membros da Família. Uma das características do jogo de Pendragon é que ele tende a ser uma campanha em que uma grande e épica história se desenvolve na Corte do Rei Arthur. Quem já teve a sorte de ler Príncipe Valente sabe bem o que é isso.

Conclusão

King Arthur Pendragon RPG cumpre o que se propõe, ser um jogo voltado para interpretar cavaleiros medievais. O jogo é muito elogiado por quem o conhece, o que despertou minha curiosidade. A leitura é agradável e não é cansativa. O sistema em si é até simples, mas a ideia de construir uma campanha que faça um bom uso de suas melhores características pode parecer intimidante. No entanto, há uma solução!

Além do livro principal, o suplemento The Great Pendragon Campaign pode ser considerado necessário para quem se propõe a mestrar uma campanha de Pendragon. Ele é uma mega-campanha que leva os jogadores do Reinado de Uther até os dias gloriosos do Reinado do Rei Arthur e da Távola Redonda, com aventuras para cada um dos anos entre 485 e 565. The Great Pendragon Campaign é considerado a melhor campanha de RPG por muitos rpgistas.

Eu só sei que depois de ler King Arthur Pendragon RPG, fiquei com uma vontade enorme de narrar uma campanha que me lembre as histórias do Príncipe Valente na Época do Rei Arthur.

Prince Valiant 05

Para quem quiser mais informações sobre Pendragon RPG eu criei um pequeno blog com resumos do livro: A Saga de Pendragon (tinha escrito essa resenha no blog para apresentar o jogo ao meu grupo).

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