Coriolis: Space Opera de respeito

Coriolis: The Third Horizon é uma space opera no estilo de Duna, com um tema tirado das 1001 Noites no Espaço.

A História do Terceiro Horizonte

Mil anos atrás a humanidade partiu para as estrelas. Dezenas de naves-arcas foram enviadas para o espaço. Duas delas foram a Zenith e a Nadir. Seu objetivo era a estrela de Aldebaran.

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 Entretanto, algum tempo após a partida dos colonos, enquanto a Zenith fazia sua viagem espacial, a humanidade descobriu um misterioso portal construído por alguma outra raça e que levava a um novo conjunto de sistemas, que foi chamado de Primeiro Horizonte. Depois outros dois foram descobertos. O Terceiro Horizonte, o mais distante da Terra, foi colonizado por aventureiros, por dissidentes e rebeldes que buscavam escapar do governo imperialista que havia se formado no Primeiro Horizonte.

O Terceiro Horizonte consiste em 36 sistemas solares interligados por misteriosos portais. A Terra (ou Al-Ardha) é apenas uma mera lembrança do passado distante. As ligações entre o Terceiro Horizonte e os dois primeiros Horizontes foram cortadas mais de 100 anos atrás após a Guerra dos Portais, que lançou o Terceiro Horizonte em uma Era de Trevas, com isolamento e perda de contato entre os sistemas do Terceiro Horizonte.

Coriolis Third Horizon map

Até que, sessenta anos atrás, a Zenith, após perder contato com sua nave-irmã Nadir, chegou finalmente a seu destino, o sistema estelar de Aldebaran. Apenas para seus tripulantes descobrirem que o sistema já estava colonizado pela Humanidade, que o chamava de Debaran.

Após um período de tensão, os colonos recém-chegados se dividiram em grupos, uma parte se estabeleceu no planeta Kua, liderada pelo capitão da nave, outro grupo, liderado pelos engenheiros transformaram a arca na Estação Espacial Coriolis e declararam uma nova era de comércio, redescoberta e paz.

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A principal linha de divisão nos mundos e estações espaciais do Terceiro Horizonte é entre os Firstcome – que vieram pelos portais – e os Zenithians – que chegaram na nave-arca Zenith. Os Firstcome são seguidores dos Ícones, enquanto os recém-chegados Zenithians tem uma visão muito mais pragmática, baseada na ciência e no comércio, embora muitos tenham adotado a crença nos ícones, pelo menos nominalmente.

O cenário de Coriolis é um caldeirão de culturas, pessoas e facções. O Terceiro Horizonte não é dominado por um poder único, mas por uma variedade de grupos, grandes corporações, organizações, ordens, tribos, piratas espaciais, vizires e sultões. Entretanto, apenas algumas facções – aquelas com poder político e tradição [ou dinheiro] – são chamadas de Facções. Atualmente, considera-se que existem dez Facções.

 As 10 facções são:

  •  O Consortium, formado por múltiplas companhias estabelecidas pelos recém-chegados Zenithians, controlam a estação Coriolis e se tornaram a mais influente organização em vários sistemas.
  • A Free League, uma coalizão de trabalhadores formados a partir do sindicato das docas de Zenith e que é forte nos sistemas e planetas mais afastados.
  • A Legião, uma antiga organização militar mercenária que segue um código de honra próprio.
  • A Hegemonia Zenithian, descendentes dos oficiais da Zenith e liderada pelos descendentes do capitão da nave-arca.
  • O Sindicato, a maior organização criminosa dos sistemas, controlada pelas Cinco Famílias.
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  • A Ordem do Pária, um grupo religioso com uma reputação dupla – seriam bons samaritanos que mantém hospitais e orfanatos nos principais sistemas ou fanáticos religiosos lembrados pelas atrocidades que cometeram durante a Guerra dos Portais?
  • A Federação Nômade, um grupo disperso de frotas espaciais e naves isoladas, que quando se juntam e vencem sua rejeição à autoridade possuem a maior frota do Terceiro Horizonte.
  • A Igreja dos Ícones, um novo culto que cresce rapidamente e que nega a dualidade dos Ícones, para eles toda a maldade está no coração dos humanos.
  • Os Draconitas, um grupo secreto de monges filósofos formado por Zenithians renegados com tecnologia avançada e devoção à Senhora das Lágrimas e cuja origem ou propósito ninguém compreende.
  • O Templo de Ahlam, uma facção religiosa devotada aos ensinamentos do Profeta, com um foco nas artes, mas temida por seus Assassinos.

Nas últimas décadas uma certa calma havia se estabelecido entre as Facções, até que a chegada de misteriosos aliens, os Emissários, que clamam serem a encarnação dos Nove Ícones, abalou o Terceiro Horizonte. Ninguém sabe o que os Emissários realmente são.

Temas

No jogo, os personagens formam a tripulação de uma nave que viaja pelo Horizonte, explorando antigas ruínas dos Construtores dos Portais, negociando com estranhas facções, participando das intrigas políticas em estações espaciais e planetas misteriosos. Como o livro diz, Coriolis é sobre djinns, vastos desertos, magníficos palácios, ladrões e vagabundos entre espaçonaves, portais e armas de raios. O Sistema é inspirado pela cultura do Oriente Médio ao invés da cultura oriental. Desde a comida, música e moda, até os mitos e folclore.

Coriolis ruas

Tecnologia e espiritualidade. A tecnologia é avançada, com implantes e biomodificações, naves espaciais e armas de raios. Entretanto, a espiritualidade perpassa todos os níveis do Terceiro Horizonte. O poder dos Ícones é palpável. Eles podem ajudar os crentes ou atrapalhar aqueles que não tem fé.

 A Escuridão entre as Estrelas (The Dark Between the Stars) como uma força misteriosa e temida nas profundezas do espaço, capaz de enlouquecer os humanos.

As divisões entre a Humanidade, entre os descendentes daqueles que chegaram primeiro (via portais) e os recém-chegados (que partiram da terra muito antes, em naves generacionais, mas só chegaram duas gerações atrás para encontrar o setor já colonizado por uma humanidade com uma cultura diferente).

Exceto pelos misteriosos Emissários, e por algumas poucas raças sencientes, o Terceiro Horizonte é dominado pelos humanos e suas modificações.

 Inspiração

  • Firefly, mas com influência das 1001 Noites. Nesse sentido, o jogo lembra também séries mais modernas e conhecidas, como The Expanse e Killjoys. Também poderia ser jogada como uma série de exploração, no estilo de Star Trek: Discovery, mas sem o background da Federação.
  • Duna e Darkover, ficção científica misturada com misticismo. Não são citadas diretamente pelo jogo, mas as inspirações estão ali. Em regra, o cenário é um pouco mais hard science do que Duna e nesse sentido lembra mesmo Darkover, especialmente pela existência dos Místicos – que são humanos com poderes mentais.
  • Alien, terror nas profundezas do espaço, representado pelo mistério da Escuridão entre as Estrelas, que também tem um toque de Cthulhu.
  • Mass Effect: ambos os jogos possuem uma enorme estação espacial e uma nave e sua tripulação que viaja pelo espaço.

O livro básico também descreve em detalhes a estação Coriolis e o sistema Kua, o principal sistema do Terceiro Horizonte. Além disso, dá informações sobre mais alguns dos sistemas.

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Coriolis é uma ficção científica, mas com um estilo mistura uma Space Opera com um jogo sandbox de exploração no espaço. Inclusive, no suplemento Atlas do Terceiro Horizonte, existe um gerador aleatório de planetas muito completo. O gerador permite construir planetas, cinturões de asteroides e luas, usando as tabelas aleatórios do jogo.

A ideia é que o narrador jogue para construir os planetas que não foram detalhados no livro base ou no próprio Atlas. Mas o gerador pode ser usado para fazer todo um sistema solar (e se os jogadores jogarem cada um por um planeta, você pode ter um sistema construído com a participação dos jogadores – quase como os jogadores constroem a própria Casa no RPG de Guerra dos Tronos).

O Sistema de Jogo

O sistema de jogo é similar ao do Mutant: Ano Zero, da mesma editora. É um sistema rápido de aprender e fazer a ficha. Utiliza dados de seis faces (d6). O personagem tem 4 atributos e existem 16 perícias.

Na jogada de dados, ele combina um atributo e uma perícia, soma os valores e lança o número equivalente de d6. Um resultado 6 é um sucesso. Três ou mais é um sucesso crítico. Os testes são influenciados por talentos e por equipamentos utilizados, além da dificuldade da situação. Todos esses detalhes podem acrescentar ou retirar dados do teste. Existem muitos talentos e a lista de equipamentos é extensa.

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O primeiro passo é criar o conceito do grupo, que gira sempre em torno da tripulação de uma nave. O conceito determina a razão principal do grupo estar junto, desde uma tripulação em uma nave mineradora ou vários outras ideias, como um grupo de mercenários, caçadores de recompensas, peregrinos ou comerciantes. Se você já assistiu Firefly, Killjoys, The Expanse ou Star Trek: Discovery já tem ideia de como o conceito do grupo pode influenciar na campanha. O grupo também deve comprar uma nave (e por causa disso tem uma dívida inicial com um patrono).

A criação da ficha do personagem é rápida.O fato de seu personagem ser um plebeu, um privilegiado, um humano modificado geneticamente ou ter nascido no espaço modifica a distribuição de pontos de atributo, perícia e dinheiro iniciais. Depois você determina a aparência, talentos iniciais, escolhe ou cria um problema pessoal e as relações com outros PCs, além do equipamento inicial.

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Um dos elementos principais do jogo é a presença dos Ícones, em torno dos quais gira a religiosidade do Terceiro Horizonte. Existem nove Ícones e durante o jogo os personagens podem fazer uma oração para os ícones. Em termo de jogo isso significa que os jogadores podem jogar novamente os dados que não saíram 6. Mas se fizerem isso, o narrador ganha um Ponto de Escuridão. Além disso, Pontos de Escuridão podem ser ganhos ao enfrentar os mistérios do espaço profundo. Aos poucos, os pontos de Escuridão vão se acumulando nas mãos do narrador. Os Pontos de Escuridão podem ser usados pelo narrador contra os jogadores. É uma variante da ideia já bem comum em vários RPGs, sendo que aqui os jogadores podem usar a oração aos Ícones quantas vezes quiserem, mas sabendo que isso vai aumentar a dificuldade no futuro, quando os ícones restaurarem o balanço do universo.

Além disso as regras de combate de nave parecem ser bem interessantes, com cada um dos jogadores assumindo uma posição na nave (capitão, engenheiro, piloto, operador de sensores e operador de armas) e cada turno leva em conta as ações de cada um deles, iniciando pela fase do capitão e seguindo pelas demais posições. Em cada fase, o tripulante responsável pode escolher entre várias ações de combate.

Problemas do Sistema

O maior problema do sistema está na dificuldade de “vender” o jogo. Coriolis é um cenário diferente, não é baseado em uma franquia conhecida, nem pode ser explicado em uma frase como “jogo pós-apocalíptico” ou “reino estilo medieval com elfos”.  A melhor explicação é “Firefly com temática do Oriente-Médio”, mas mesmo ela explica pouca coisa do cenário.

O narrador vai ter trabalho de evitar carregar os jogadores de informação. As informações do cenário tem de ser inseridas aos poucos. De certa forma, séries de TV como Killjoys ou The Expanse fazem isso muito bem. Além disso, para uma campanha dar certo, os jogadores – e não apenas o narrador – têm de estar interessados, no cenário, ou pelo menos abertos a conhecer.

Conclusão

Mas para os grupos que curtem Space Opera e sistemas diferentes, Coriolis é um jogaço. O livro é um dos mais bonitos que já vi (empata com Fall of Delta Green, em minha opinião). Ver algumas das imagens do jogo foi o que me fez ficar com vontade de lê-lo.

A História do Terceiro Horizonte é interessante e cheia de possíveis plots. Hoje em dia eu gosto de ter um cenário já pronto para uma campanha, com vários ganchos, grupos e ideias, ao invés de ter de criar todo um cenário próprio. É uma economia de tempo.

Além disso, as regras são simples e eficientes. O sistema parece fluir bem e eu sei que o Mutant: Ano Zero, em que ele se baseia, é bem elogiado. Uma pena que Coriolis: Third Horizon provavelmente nunca vai aparecer em português e vai ser mais um daqueles sistemas desconhecidos por aqui.

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2 Comments

  1. Ótima resenha, acompanho Coriolis desde o anúncio do KS e adoro o cenário. Gostaria muito de vê-lo publicado aqui, é uma pena que isto nunca aconteça.

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