Em busca de Zerzura – Parte I

Uma expedição em busca de uma cidade misteriosa no deserto.

Nas primeiras décadas do século XX, o Saara ainda era um dos poucos lugares desconhecidos do mundo. Desde o fim do século XIX até o início da 2a Guerra Mundial, exploradores procuraram pela Cidade Perdida de Zerzura, situada em um magnífico oásis de palmeiras e pássaros brancos.

Muitas histórias e lendas permeavam o imaginário do deserto… em comum apenas a existência de tesouros valiosos, capazes de alimentar a cobiça dos homens em sua perigosa busca por poder e riqueza.

“Na década de 1930, um grupo de exploradores europeus fundou o Clube Zerzura, com o objetivo de achar a cidade perdida de Zerzura. Entretanto, o início da Segunda Guerra Mundial terminou com a empreitada. Os exploradores acabariam por servir a cada um dos lados na guerra”.
O Paciente Inglês, por Michael Ondaatje, 1992.

egypt_map.jpg

Ideias para aventuras: o grupo de aventureiros participa do Clube Zerzura ou então é amigo de um membro do clube e foi convidado para o jantar. No jantar, eles conversam com um dos membros do Clube que diz que está seguindo uma nova pista sobre a mítica cidade do deserto.

Essa aventura é inspirada no suplemento Mythos Expeditions, sobre expedições de Rastro de Cthulhu, mas como você pode usar Chamado de Cthulhu.

Pouco tempo depois da reunião do Clube Zerzura, eles descobrem que um dos membros do clube foi assassinado em uma viela do Cairo.

PARTE I – LONDRES

Zerzura - Londres

Cena 1: Um jantar em Londres

Os investigadores são convidados para um jantar no Hyde Park Hotel, um luxuoso hotel em Londres [ver o convite abaixo]. Lá estão vários membros exploradores famosos – militares e cientistas. Eles fazem parte de um clube de exploradores fundados alguns anos antes, no deserto do Saara.

Craig_letter_1936.jpg

Enquanto conversam, um dos exploradores, o Capitão Bather, revela que descobriu pistas sobre um manuscrito árabe que conteria direções para a mítica cidade de Zerzura.

  • Se os investigadores pedirem mais informações, Bather vai se recusar a fornecê-las ou desconversar, dizendo que quando tiver em mãos o manuscrito ele pretende montar uma expedição ao deserto.

O líder do Clube, o Major Craig, faz um brinde aos exploradores e à descoberta da cidade.

Interlúdio… Dois meses depois do jantar

Cena 2: Más notícias chegam rápido

Alguns meses depois, os investigadores são surpreendidos ao abrir o Times e ler a notícia de que o Capitão Bather foi morto no Egito. Segundo a notícia do jornal, ele teria sido atacado em um beco por bandidos árabes e sido assassinado. Parte dos problemas que estão ocorrendo no Egito, por causa de agitações dos nacionalistas, segundo a notícia de jornal.

Quase simultaneamente, os jogadores que fizeram amizade com Bather durante o jantar no ano anterior recebem uma carta de Bather, escrita um ou dois dias antes de sua morte e enviada pelo Royal Mail por navio a vapor para Londres.

Segundo a carta, Bather menciona que descobriu o manuscrito chamado Kitab al Kdnuz (que significa O Livro das Perólas Escondidas). Ele convida os personagens para participarem da expedição e da descoberta da cidade ou comemorarem a descoberta da cidade no ano que vem, no próximo jantar do clube.

O líder do Clube, o Major Craig também recebeu a carta, e chama os investigadores, solicitando que eles o ajudem a descobrir o que aconteceu. Ele suspeita que Bather foi assassinado por causa de suas descobertas. Essa é uma forma de incluir os personagens que não chegaram a conhecer ou conversar com Bather durante o jantar.

Essa é a lista do jantar de 1935:

Zerzura Members_1935.jpg

Ela pode ser fornecida pelo Major Craig, se os investigadores suspeitarem de alguma intriga dentro do clube. O Major não tem a lista do último jantar, em 1936, mas pelo que ele se lembra, além dos investigadores, os participantes da reunião foram os mesmos de 1935.

Cena 3: Museu Britânico em Londres

Antes de partir para o Cairo, os personagens podem procurar pistas sobre o livro Kitab al Kdnuz ou sobre a cidade de Zerzura no Museu Britânico ou nas livrarias de livros antigos em Londres [ver uma lista aqui].

Pista Importante: Existe uma menção ao Kitab al Kdnuz (The Book of Hidden Pearls) em textos traduzidos do árabe no século XV.

A maioria das cópias foram perdidas durante a época da Inquisição.

Ou talvez haja uma tradução incompleta do livro feita no século XV, em grego ou latim, mas que não tem menção à Zerzura.

Além disso, podem conseguir outras informações em alguns textos antigos:

1. O grego Herodotus, em sua famosa História, menciona a legendária Cidade de Dionísio, perdida no deserto. Alguns estudiosos no final do século XIX levantaram a hipótese de que essa seja a cidade de Zerzura.

2. Histórias da época das Cruzadas, escritas na época medieval, dizem que um grupo de cavaleiros templários e cruzados perdidos no deserto vagou até chegar a um Oásis no meio do deserto. Lá, um dos templários acabou por se casar com a Rainha e a população teria se convertido ao cristianismo. Os templários se tornaram os guardiães dos segredos do Oásis.

Cena 4: Livrarias antigas de Londres. 

Em uma das livrarias antigas londrinas, existe uma tradução incompleta do livro The Book of Hidden Pearls, que pode ser comprada por um preço exorbitante.

É uma tradução mal-feita, em inglês, de uma tradução em latim, no século XVII. Nela não consta a história completa de Zerzura e embora mencione o oásis e as riquezas de Zerzura, não menciona nada sobre o conto do caravaneiro.

Entretanto, há menções as terríveis criaturas do deserto, os djinns, espíritos malignos capazes de levar os homens a se perderem no deserto. Apesar de não trazer pistas melhores sobre a cidade, quem ler o livro pode aprender um feitiço que serve para afastar os guardiões dos tesouros das areais.

Mas quem ler o livro também deve fazer um Teste de Sanidade.

Parte II – CAIRO

Cairo.jpgOs investigadores devem seguir para o Cairo, de navio, via estreito de Gibraltar e Malta. O Egito é, desde 1922, um reino independente governado pelo Rei Ahmed Fuad, apesar da influência ocidental, principalmente inglesa, ainda ser grande.

A investigação também se divide em algumas cenas, começando no Hotel Shepheard.

Egito

Ao chegarem ao Cairo, os investigadores descobrem que o Capitão Bather estava hospedado no Hotel Shepheard, em que ficam muitos dos estrangeiros em visita ao Egito.

Shepheards_hotelHotel Shepheard

A vítima estava hospedada no Hotel Shepheard. O Bar Americano do Hotel é ponto de encontro de viajantes ingleses, franceses e americanos. Se algum dos investigadores já esteve no Egito e é um estrangeiro ocidental, já passou pelo bar do hotel.

Lá, se investigarem, descobrem que Bather conversou com um estrangeiro (o garçom se lembra do sotaque estranho do estrangeiro ao falar inglês, mas não sabe dizer qual sua nacionalidade).

Além disso, as testemunhas se lembram que o capitão tinha um ajudante nativo, um árabe de nome Omar. Ninguém viu mais o árabe desde o assassinato do capitão.

Os Investigadores também podem descobrir pela conversa com alguns habituais do bar que existe uma disputa entre os membros do Clube Zerzura e que talvez um deles tenha sido o responsável por assassinar o major.

Buscando pistas

Examinando no Museu Egípcio ou na Biblioteca Real Egípcia, os investigadores podem descobrir mais pistas sobre a misteriosa e rica cidade de Zerzura, extraídas de alguns pergaminhos antigos. Algumas dessas informações também podem ser conhecidas se os personagens tiverem nível alto de História, Arqueologia ou outra perícia relacionada.

Além disso, os investigadores também podem procurar o ajudante do capitão Bather. Seu nome é Omar Al Karim. Entretanto, a maioria dos ingleses só o conhece como Omar, já que para os britânicos ele era apenas um ajudante do capitão. O nome completo pode ser conseguido com o professor da Universidade do Cairo ou com um dos diretores do Museu Egípcio. Ele também pode indicar o bairro em que Omar morava.

Existem, portanto, pelo menos 3 opções de investigação, que podem ser seguidas na ordem que os jogadores preferirem:

  • Museu Egípcio
    • nenhuma pista realmente importante, além da menção à uma cidade no deserto
  • Biblioteca Real Egípcia
    • Kitab al Kdnuz
  • Residência de Omar
    • Mapa
    • Casa de chá em que Omar se esconde

O ajudante

quarto da residência de Omar Al Karim fica em uma parte pobre da cidade do Cairo. O ajudante fugiu apressado após o assassinato do patrão, com medo de ser também morto.

O quarto foi revistado e está desarrumado, mas quem estava mexendo nele aparentemente saiu antes de completar seu objetivo. Eles encontram escondido atrás de um armário um mapa indicando uma rota pelo deserto.

O Mapa: o mapa marca uma rota além do Grande Mar de Areia. Uma zona perigosa e mortal do deserto.

Omar pode ser encontrado após algumas buscas em uma casa de chá. Ele está assustado. O assassino foi um dos europeus conhecidos do capitão. Ele não é um britânico, mas um italiano. Estava acompanhado de um alemão.

Museu Egípcio

the_Egyptian_Museum

Inscrições em pedra nas pirâmides citam uma fabulosa cidade no deserto, fundada pelo faraó Khufu, da Antiga Dinistia, 4.700 anos atrás.

Biblioteca Real Egípcia

Cairo Library.jpg

Antigo pergaminho com um texto persa:

Em um texto persa, consta que, durante a Antiguidade, os persas perderam um exército nas areias do deserto, enviado pelo Imperador Cambises para conquistar um reino do deserto que os egípcios diziam comerciar pedras preciosas .

Pergaminho grego:

Aristarco de Samotrácia, um dos último bibliotecários famosos de Alexandria, menciona em uma correspondência de 175 d.C. um pergaminho da Biblioteca de Alexandria contendo um mapa para um oásis no deserto e a indicação de uma cidade de muros brancos em torno do oásis. Infelizmente, a Biblioteca, depois de uma longa decadência, foi destruída em 642 em um grande incêndio.

A pista mais recente é do início do século XIX, em um livro obscuro de um egiptólogo inglês. Ele dá uma ótima pista de um possível caminho a ser seguido:

“Um árabe das caravanas que cortam o deserto, me disse que achou um oásis enquanto procurava por um camelo perdido. Ele contou que Zerzura está apenas a alguns dias a oeste do Oásis de Dakhla, seguindo o curso de um wadi após encontrar um outro oásis, a leste da trilha entre Farafra e Bahariya. Então seguirá o curso do segundo wadi até que mais a leste verá uma montanha e entre a montanha uma passagem, com um castelo no topo. E um vale no meio da montanha. Lá abundam palmeiras, tâmaras, fontes de água e pássaros brancos. E entre as palmeiras e fontes, ruínas antigas”.
Topografia de Tebas e vista geral do Egito, por Jonh Gardner Wilkinson
Egiptologista Inglês, 1835.

CIS:SD.701

Além disso, uma notícia pode ser encontrada em um jornal do final do século, sobre uma expedição enviada pelos britânicos ao deserto, pouco depois dos ingleses terem ocupado o Egito:

“A expedição britânica no deserto partiu do Oásis de Siwa em fevereiro de 1886 em direção ao sul, com o intuito de cruzar o Grande Mar de Areia e descobrir Zerzura. Entretanto, apenas dois homens voltaram. O inglês Alex Campbell e o árabe Al-Mawt”.

 Kitab al Kdnuz

A pista principal é o livro Kitab al Kdnuz (The Book of Hidden Pearls).

O “Livro das Perólas Escondidas” traz uma série de contos sobre locais misteriosos e segredos do norte da África. Em suas páginas, um dos contos menciona uma visita a Zerzura. Trata-se do conto de um cameleiro árabe chamado Hamid Keila, datado de 1481, que foi encontrado vagando no deserto.

O livro ainda detalha feitiços e encantações destinados a afastar espíritos malignos que guardam os tesouros místicos.

“Uma cidade de muros brancos como um pombo, em um Oásis escondido no meio do deserto, em cujo portão está esculpida um pássaro. Aquele que procura por tesouros deve pegar com uma mão a chave no bico da ave, e então abrir a porta da cidade. Entre e lá você encontrará grandes riquezas”. 

Kitab al Kdnuz (The Book of Hidden Pearls). Autor anônimo do séc. XV

Segundo o livro, o caravaneiro disse ao Emir de Bengazi que tinha viajava pelo deserto, quando sua caravana foi engolfada por uma terrível tempestade de areia que durou uma semana. Quando o tempo melhorou, homens e camelos estavam mortos e ele era o único sobrevivente.

O que ele disse ao Emir foi gravado pelos escribas. Ele contou que vagou perdido pelo deserto, até que quando estava à beira da morte, foi encontrado por um grupo de cavaleiros e levado até um oásis no qual se erguia uma magnífica cidade. E lá fora recepcionado pelo Rei e pela Rainha de Zerzura que o trataram muito bem.

De acordo com sua descrição, os habitantes da cidade eram altos, com olhos azuis e cabelos lisos, carregando espadas retas ao invés das cimitarras árabes e falavam uma língua parecida com o árabe. O único acesso à cidade era por um wadi, o leito seco de um rio, entre duas montanhas. A cidade murada era rica, com fontes douradas de água e torres brancas cor-de-marfim, com pedras preciosas incrustadas nas paredes.

O caravaneiro disse também que caiu nas graças do Rei de Zerzura e que este ofereceu a mão de sua filha em casamento. Pela descrição, o oásis era um paraíso de beleza e riqueza.

Entretanto, o Emir suspeitou das palavras do caravaneiro. E, ao ordenar que ele fosse revistado, descobriu que ele escondia um anel de ouro com um enorme rubi vermelho. O caravaneiro não disse como conseguira o anel. Então, considerando que ele o roubara dos zerzuranos, que o salvaram do deserto, o Emir o condenou a perder a mão direita pelo roubo. O anel com o enorme rubi entrou para o tesouro do Emir e acabou em posse do Rei Idris, da Líbia.

A leitura do livro leva a fazer um teste de sanidade.

Pista opcional: pela descrição do anel, feita no livro, ele é de origem europeia.


Parte III – A Expedição

Tendo reunido as informações necessárias, os investigadores devem se preparar para partir para o deserto em busca de Zerzura. Sabendo que há outros em busca da cidade e que provavelmente partiram antes.

Continua…


Curiosidades:

O Clube Zerzura existiu realmente. Foi formado por um grupo de exploradores do deserto que se reuniu em um bar, em uma cidade na beira do deserto do Saara, em 1930. Seu nome vem do mítico Oásis de Zerzura. Esses exploradores usavam carros e aviões para explorar o deserto. O fundador do grupo foi o Major inglês Ralph Bagnold.

bagnold1929
Bagnold

Com o passar dos anos, outros exploradores se juntaram ao grupo. Eles passaram a se reunir em Londres, anualmente, até o estouro da 2a Guerra Mundial. Durante a guerra eles lutaram na guerra no deserto, em ambos os lados do conflito. Os ingleses formaram parte da unidade conhecida como Ratos do Deserto, responsável por várias operações contra as tropas italianas e alemães.

Membros do Clube são os personagens principais do filme O Paciente Inglês.


A ideia para o jogo me veio do livro The Nazi Occult, de Kenneth Hite, que também é o autor de Rastro de Cthulhu:

“Durante a 2a Guerra, uma expedição nazista organizada pela Ahnenerbe tentou localizar o Oásis Perdido de Zerzura”.
The Nazi Occult, Kenneth Hite, 2010.

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