Dragonlance: Os Espinhos Negros

Capítulo III

O Acampamento

Becklin guiou Rhimarim, Ryushi e Archimond através de trilhas que apenas ela conhecia entre os cânions que cercavam Vogler ao norte. Ao ser questionada pelo jovem mago para onde estavam indo, mesmo ainda desconfiada, sabia que era preciso explicar: a Cavaleira da Solamnia estava certa que as três figuras que ela vira antes eram Blackthorn Knights, mas precisamente Zanas Sarlamir e mais dois lacaios desmortos de Soth. E embora ainda não estivesse clara as motivações de Lord Soth para tanto, ela tinha certeza o que eles procuravam pela Biblioteca de Arzemund. Sua localização havia sido confiada a ela, uma das últimas guardiãs juradas daquele local de conhecimento perdido pré-cataclisma. Conhecimento que, nas mãos de alguém como Soth, apenas poderia resultar em caos e destruição. Por isso eles precisavam chegar até à biblioteca e destruir seu acervo.

Ao ouvir isso, Ramarim quase foi tomado pelo desespero. Deveria haver outra forma, ele insistia, de frustrar os planos de Soth. Becklin, porém, foi incisiva: aquela era a missão, e eles não poderiam vacilar. Precisava da palavra de todos ali que eles a executariam como as circunstâncias exigiam. Todos, enfim, concordaram, ainda que Rhimarim estivesse claramente desgostoso com essa escolha. Ainda assim ele faria o possível para recuperar o máximo de conhecimento possível antes de destruir aquele tesouro. Para ajudar Ryushi deu a Rhimarim uma Bag of Holding que ele havia criado recentemente com suas habilidades de artífice. Por fim, Becklin explicou como executariam o plano. A biblioteca tinha em sua sala principal um mecanismo de segurança. Na verdade, uma armadilha. Bastava que um deles retirasse um pergaminho de um pedestal no centro da sala, sem desativar a armadilha, que um incêndio imediatamente se iniciaria, dando apenas poucos instantes para eles fugirem. Assim, o grupo chegou, enfim, ao cânion no qual, atrás de uma pequena queda d’água, a entrada das ruínas da Biblioteca de Arzemund se escondia e penetraram num verdadeiro templo do conhecimento, apenas para, lamentavelmente, destruí-lo para sempre.

Em outro lugar, Astray, Martin e Mordek se aproximavam do local onde acreditavam que o Ironclad Regiment estaria acampado. Astray decidiu enviar Mordek na frente como batedor, e logo o ladino retornou com importantes informações: ele não vira Cudgel e os mercenários que haviam batido em retirada com ela de Vogel; mas vira alguns corpos de outros membros do bando de mercenários e tantos outros feridos. Entre eles Jeyev Veldrews, um dos membros do Ironclad Regiment em quem eles mais confiavam. Aparentemente teria havido algum tipo de combate, eles calculavam, entre os mercenários fiéis a Cudgel e uma outra parte do bando que, por ter família na região, não via com bons olhos a decisão da líder deles. Decidiram que era seguro avançar, enfim, e conversar com Veldrews.

Ao encontrar com o mercenário, as suspeitas deles se confirmaram. De fato Cudgel tinha chegado ali com o grupo que batera em retirada de Vogler e, quando interpelada por aqueles como Veldrews que não concordavam com o rumo de ação escolhido por ela, um batalha irrompeu. No fim, Cudgel conseguira fugir com boa parte dos homens. Os que não morreram e estavam ali haviam decidido não ajudá-la. Com a chegada de Martin e Astray, e com as notícias que eles trouxeram, tudo ficou mais claro. Martin pediu a ajuda de Veldrews pois agora eles tinham certeza que de fato a pequena vila de pescadores era um alvo de quem quer que tivesse contratado os serviços de Cudgel. E era sobretudo isso que eles precisavam descobrir. Astray, assim, questionou Veldrews se ele sabia para onde Cudgel teria ido e o mercenário respondeu que tinha uma suspeita.

Durante algum tempo Veldrews já vinha desconfiando das ações de Cudgel, que primeiro tinha trazido para o grupo tipos mais belicosos do que o normal, a exemplo do semi-ogro Gragohr, depois passara a sair de seus acampamentos com mais frequência sem dar quaisquer satisfações a ninguém. Veldrews sabia que ela estava negociando algum tipo de contrato e naquele momento imaginava que ela o fazia em segredo principalmente por ganância. Um dia antes de ela partir para Vogler, Jeyev Veldrews decidira seguir Cudgel que saíra em mais uma de suas escapadas para enfim descobrir o que estava acontecendo. Não para surpresa de Astray Cudgel, segundo o relato de Veldrews, havia se encontrado com membros do exército de Takhisis, no mesmo local onde, cerca de um ano antes, Lyhriann, a meia-irmã de Martin, havia mergulhado para a morte. Veldrews acreditava que ela havia ido mais uma vez para lá, considerando a direção que ela tomara, para se reunir com seus contratantes. Martin e Astray pediram a Veldrews que retornasse à Vogler, falasse com a prefeita Raven Uth Vogler sobre a ameaça do exército e ajudasse a cidade como possível. Enquanto isso, eles tentariam, furtivamente, rastrear Cudgel e, assim, com sorte descobrir mais sobre o tamanho da ameaça que enfrentavam.

A Biblioteca

Dentro da Biblioteca de Arzemund, Rhimarim se sentia perdido em um sonho, que ao mesmo tempo, tinha um gosto amargo de pesadelo. Ele tentava avaliar o mais rápido possível que textos, a maioria escritos em pergaminhos, que ele poderia resgatar e simplesmente os arremessava dentro da Bag of Holding. Archimond, volta e meia, ajudava com algumas sugestões e, enquanto avançavam, Ryushi e Becklin conversavam e estreitavam seus laços. A Cavaleira da Solamnia era uma pessoa muito desconfiada, Ryushi sabia. Era muito diferente do sempre amistoso e falastrão Ispin. Mas o jovem artífice sentia que um peso muito grande embargava o peito dela e que ela precisava desesperadamente – desde que perdera seu grande amigo, e desde a traição de sua antiga companheira Cudgel – de alguém para conversar. E de fato Becklin precisava, porém ela ainda não estava pronta para revelar seu mais obscuro segredo para ninguém. Porém, ante uma gentil oferta de Ryushi de “estar à disposição” dela para o que quer que precisasse, ela respondeu com um pedido: ela tinha algumas antigas armaduras de Cavaleiros da Solamnia no Forte Thornwall e gostaria que Ryushi reformasse uma delas para presentear Darret Highwater, seu jovem escudeiro. Ryushi prontamente aceitou o pedido bem como prometeu, a pedido de Becklin, que caso algo acontecesse com ela, ele mesmo daria a armadura a Darret.

Logo em seguida o grupo alcançou o salão principal. Era hora de fazer o que precisava ser feito. Becklin explicou que, no passado, famílias nobres da Solamnia haviam feito doações para que a biblioteca fosse construída. Uma delas tinha sido a família de Sarlamir, que no passado, antes dele cair em desgraça e trair a ordem sujando todo o nome da família, havia sido uma das mais poderosas de Kalaman. Ninguém sabia dizer ao certo qual fora exatamente a desgraça de Sarlamir, pois todos os registros sobre ele haviam sido ou destruídos ou deliberadamente apagados no caótico período entre antes e depois do Cataclisma. Mas, provavelmente, Zanas Sarlamir estava ali justamente em busca de algo relacionado ao seu passado. A sala onde eles estavam agora, ele explicava, havia sido construída inteiramente com ouro doado pelos Sarlamir e para marcar esse ato, o brasão da família do Cavaleiro Blackthorn decorava o arco que cobria o pedestal principal. Ao ver o brasão Rhimarim foi tomado por um misto de imensa surpresa e temor. Aquele, ele percebeu, era o brasão de sua família. Ou pelo menos, uma versão antiga dele. À medida que Becklin explicava como alguns boatos sugeriam que a família Sarlamir teria ela mesmo sido responsável por apagar os registros sobre a desgraça de Zanas, Rhimarim compreendia a verdade. A família Sudanari, sua própria família, no passado tinha sido a poderosa família Sarlamir que, para esconder sua vergonha, mudara de nome e envidara imensos esforços – talvez até mesmo empreendendo mais magia – para apagar a história de seu mais infame membro. Era por isso que Rhimarim havia sentido uma ligação tão forte com Zanas. E talvez fosse também por isso que a chama negra que emanava de Zanas Sarlamir não o consumira por completo. Eles tinham o mesmo sangue. Mas a descoberta assombrosa que ele fizera, naquele momento, precisava esperar, pois, antes que ele pudesse expressar qualquer reação, o próprio Zanas Sarlamir acompanhado de dois Cavaleiros Blackthorn surgiram das sombras para atacá-los.

Becklin se voltou para encarar Zanas sozinha, gritando ordens para os outros: eles não estavam preparados para aquela luta, e não deviam tentar ajudá-la. Cabia a eles apenas seguir com o plano. Mas os outros dois Blackthorn não facilitariam para os jovens aventureiros. Enquanto Ryushi e Archimond se engajaram em uma luta mortal com os Cavaleiros Esqueletos, Rhimarim se aproximava do pedestal, usando de todas as suas forças para resistir a seu impulso natural de proteger, ao invés de destruir conhecimento. Durante alguns instantes ele hesitou. Instantes preciosos que quase custaram a vida de Archimond que tombou gravemente ferido pela lâmina amaldiçoada de um dos Blackthorn e apenas não morreu ali mesmo graças à intervenção de Ryushi. Becklin também sofria duramente no embate com o poderosíssimo Zanas que, diferentemente dos outros, tinha uma presença quase que completamente fantasmagórica – com exceção de seu crânio que havia sido recuperado por Nerany e Lohezet na noite do olho do ano anterior – cuja substância etérea era basicamente formada pelo Fogo do Cataclisma. A hesitação de Rhimarim também cobrou um duro preço de Becklin que sentiu suas estranhas serem perfuradas pela lâmina fantasmagórica de fogo negro de Zanas Sarlamir que queimava como gelo do inferno. Becklin gritou mais uma vez para que Rhimarim agisse e, diante disso, o jovem mago enfim agiu e ativou a armadilha. Fogo vermelho começou a se espalhar a partir do pedestal em direção ao teto, inflamando quase que imediatamente o salão inteiro. No pergaminho que estava sobre o pedestal, o qual Rhimarim alcançara para ativar a armadilha, havia um encantamento com a magia “Passagem” inscrito que criava um túnel de fuga para quem o usasse. Graças a isso o grupo conseguiu fugir de Zanas e dos outros Blackthorn, deixando a Biblioteca de Arzemund e todo seu inestimável conhecimento se consumir em chamas e fumaça.

O Exército Sombrio

Com Mordek os guiando, Martin e Astray conseguiram se esgueirar, sem nenhuma surpresa, pelas trilhas que levavam ao local em que, cerca de um ano antes, a tragédia os havia atingido. Dali, de onde Zanas Sarlamir lançara Lyhriann para a morte, os aventureiros viram algo que, embora não inesperado, não era menos impressionante: no vale, abaixo deles, se estendia um imenso exército. O Exército do Dragão Vermelho de Takhisis, repleto das monstruosas e estranhas criaturas humanoides com escamas e asas, que os havia atacado anteriormente quando da chegada do grupo a Vogler para o funeral de Ispin, que a partir daquele momento passaram simplesmente a chamar de Draconianos. Mas aquilo não era sequer a coisa mais impressionante do exército; por si só tratava-se de uma gigantesca força militar, composta de milhares de humanos, máquinas de guerra e dragões. Sim, dragões. Havia um imenso dragão vermelho em meio às tropas, com algo similar a uma sela em seu dorso. Em torno dele havia um grupo composto de outras cinco criaturas aladas que aparentavam ser dragões menores – na verdade, eles saberiam melhor mais tarde, eram Dragonnels, primos distantes dos Dragões, sem a inteligência ou habilidade mágica destes porém cheios da mesma selvageria e que funcionavam como animais de montaria.

E embora tudo isso já fosse surpreendente o bastante para qualquer pessoa, nada surpreenderia tanto Astray Verda do que quando ele identificou quem era a general daquele exército. Em meio às tropas, carregando consigo um imenso e imponente estandarte vermelho de guerra com o símbolo de Takhisis, a Rainha Dragão, estava Nerany Kansaldi. Por onde ela passava olhares de temor a reverência a acompanhavam. No momento ela bradava todo tipo de ordens, estava muito irritada e parecia procurar por algo, ou alguém. Ao lado dela um pequeno grupo do que pareciam ser soldados de elite, usando armaduras vermelhas estilizadas para simular as formas de um dragão, porém lisas e sem escamas, a acompanhava. Kansaldi discutia com algum segundo em comando enquanto avançava com sua tropa de elite na direção do dragão vermelho pousado. Em seguida, com imensa naturalidade, como se se aproximasse de um animal de estimação, Kansaldi tocou gentilmente o dorso do dragão vermelho que lentamente abaixou o pescoço para que sua senhora montasse nele. Kansaldi não era apenas a general de uma imensa força militar fanática dedicada à deusa negra do poder e submissão, Takhisis. Ela era ainda uma montadora de dragões, e Astray sinceramente não era capaz de dar conta, naquele momento, de quão gigantesco era tudo aquilo. E sim, Astray vira há cerca de um ano aquele mesmo dragão retirar Nerany, Lohezet e o crânio de Zanas Sarlamir daquele mesmo local de onde eles estavam agora. Mas ele jamais ousara imaginar que aquele ser de imenso poder fosse um servo de Nerany, o que ficava evidente agora.

Como que para arrebatar Astray de seus devaneios, Kansaldi, enfim, puxou seu dragão para cima. A fera levantou o pescoço e abriu as asas e numa poderosa lufada de vento que espalhou poeira e cinzas por todo o exército em volta, alçou voo, acompanhada em seguida dos outros cinco Dragonnels montados pelos soldados de armadura vermelha. Dragões e Dragonnels voavam como um esquadrão alado em formação com as criaturas menores cobrindo os flancos e traseira da criatura maior. Felizmente eles voavam para o norte, na direção oposta a Vogler, pois se eles quisessem, apenas aquele esquadrão seria capaz de reduzir literalmente a vila a cinzas. E aquelas eram, estranhamente, boas notícias.

Sim, havia um gigantesco exército próximo à Vogler. Porém o exército inteiro não parecia estar engajado no objetivo de tomar a pequena vila. O que fazia todo sentido, afinal, que relevância uma vila como Vogler poderia ter para um exército como aquele. Talvez, apenas, para saquear a cidade em busca de suprimentos. Porém Astray duvidava que os suprimentos de Vogler fossem capaz de servir a um exército daquele tamanho por sequer uma semana. Vogler tinha apenas 500 habitante. Aquele exército tinha pelo menos 20 vezes o tamanho da cidade. Mais ainda, a própria comandante do exército – e de uma coisa Astray tinha certeza, Nerany Kansaldi era a comandante principal do Exército do Dragão Vermelho de Takhisis – parecia estar mais interessada em voar para o norte, para as terras devastadas do que em realizar um ínfimo que fosse sobrevoo acima de Vogler para impor o terror que se exigia para uma rendição total que se esperava quando um exército perseguia uma invasão de uma cidade. Embora as ações do Ironclad Regiment na batalha de High Hill houvessem indicado que Vogler era um alvo, aparentemente a vila era um alvo secundário; e ainda que a ameaça fosse muito mais real e aterradora do que antes se imaginava, a razão e experiência de Astray também o deram a capacidade de, ao observar o comportamento do exército e de sua comandante, chegar a conclusão de que não seria a força total daquele exército que cairia sobre Vogler. Ainda era um mistério para eles o motivo de Vogler ser um alvo. O mais lógico era que tentassem usar a vila, que ficava numa posição privilegiada no curso do Rio Vingaard em direção a Kalaman, como cabeça de ponte para tomar esta última, a cidade fortaleza e capital de Hinterlund. De qualquer forma, provavelmente um regimento havia sido designado com a missão de assegurar o domínio da cidade, algo que eles esperavam que fosse se dar com facilidade o que teria de fato ocorrido, tivesse a estratégia da traição de Cudgel sido bem-sucedida. Eles haviam conseguido frustrar aqueles planos. Mas era mais do evidente do que nunca agora de que Vogler estava longe de estar segura. Ainda que não fosse todo o exército mobilizado na direção da vila, ele estava perigosamente próximo; e se as conclusões de Astray estavam certas – e ele tinha certeza de que estava certo – ainda havia pelo menos um regimento composto de pelo menos mais de 100 soldados bem treinados, junto com os mercenários que partiram com Cudgel, determinados a tomar Vogler. Uma força mais do que suficiente para obliterar a pequena vila, se assim quisessem. Era hora deles retornarem imediatamente à vila e contar o que haviam descoberto.

O retorno para Vogler foi duro para Ryushi e Rhimarim, principalmente pelo fato deles precisarem dar apoio a Becklin e Archimond que estavam muito feridos. Ryushi conseguiu, porém, utilizar suas habilidades de cura para melhorar a situação dos ferimentos e Archimond que logo conseguiu andar sozinho. Já no caso de Becklin a situação era mais grave. Ryushi jamais havia visto um ferimento como aquele. A chama negra do Cataclisma que formava a espada de Zanas Sarlamir tinha penetrado a armadura de Becklin, como se o metal sequer existisse, sem sequer arranhá-lo ou mesmo tocá-lo. Porém, havia atingido duramente a carne de Becklin sob a armadura. A lâmina de fogo fantasma penetrara rasgando e queimando o lado direito do torso da Cavaleira da Solamnia. Sangue, escurecido, minava lenta porém persistentemente por uma ferida que era um misto hediondo de carne queimada e pus enegrecido. De perto o cheiro do ferimento era putrefato e ele parecia ainda emanar o estranho “calor gélido” que a chama negra emitia. Enquanto Ryushi tentava tratar da ferida de Becklin, isolado dos outros dois, a Cavaleira pediu a ele total discrição e segredo para o que iria dizer agora. Ela conhecia Ryushi há alguns anos, e vira como ele se aproximara de Martin, e julgava-o alguém que podia confiar, mesmo o seu mais duro e obscuro segredo. Mesmo sua mais profunda dor, que era bem maior do que qualquer dor que aquele já excruciante ferimento pudesse lhe causar. Primeiro ela explicou que o ferimento do fogo do Cataclisma não poderia ser curado. Ela já vira algo assim no passado, e o ferimento nunca se fechava. Se alguém tivesse sorte, o ferimento era superficial. Mas o golpe de Sarlarmir atingira ela fundo, e Becklin sabia que era apenas uma questão de tempo até que ela sangrasse até a morte. Não havia nada que Ryushi pudesse fazer com relação àquilo. Nada menos que uma intervenção divina seria capaz de salvá-la, e ela não acreditava que os deuses desperdiçariam seu precioso tempo com uma velha cavaleira como ela. Assim ela fez um último pedido a Ryushi.

Becklin pediu a Ryushi que não esquecesse a armadura de Darret. Além disso, ele gostaria que ele também usasse uma das armaduras de lá para fazer uma nova armadura para Martin, como presente para ele. Ela acreditava que devia muito a ele. E deveria dizer a eles, quando entregasse a armadura, que eles deveriam procurar o Mestre Septuário da Ordem em Kalaman e dizer que ambos tinham sido escudeiros dela. A armadura seria a prova disso e o mestre iria sagrá-los Cavaleiros da Coroa, iniciando o caminho de ambos na ordem. Ao ouvir aquilo, Ryushi concordou, mas não conseguiu deixar de escapar que sempre sonhara em ser um Cavaleiro da Solamnia ele também. Becklin não escondeu a surpresa. Nunca poderia imaginar que o jovem e tímido ferreiro quisesse seguir o caminho da Medida. Mas, ela reconhecia, embora fosse uma escolha inusitada, ele sem dúvida tinha o espírito e o coração no lugar certos para aquela tarefa. E foi isso que ela disse a ela, sorrindo, emocionada. E ao ouvir aquilo, enfim, Becklin sabia que Ryushi era capaz de carregar consigo o peso de seu maior segredo.

Então Becklin contou sua trágica história por inteiro para Ryushi. Tudo que, um dia, apenas Ispin Greenshield soubera. Tudo que ela sacrificara e perdera e toda a dor que carregara por boa parte de sua vida. E daquele dia em diante, Ryushi de Neraka jamais foi o mesmo. Ele prometeu que jamais revelaria aquilo para ninguém.

Então, em seguida, todos partiram em direção a Vogler.

Martin, Astray e Mordek ainda se perguntavam onde estaria a ameaça mais imediata à Vogler. Havia, era certo, um contingente dos soldados que rondavam a vila. Logo eles tiveram sua resposta.

Ao se aproximarem de Vogler foram surpreendidos por um pequeno grupo de Draconianos acompanhados de soldados do exército e Takhisis. Sozinhos eles não teriam muitas chances. Ainda assim, se prepararam para o embate. Foi então que, subitamente, um grande contingente e mercenários surgiu. Jeyev havia voltado para para Vogler, porém, antecipando problemas, tinha pedido que uma duas dezenas de homens ficassem próximos à cidade escondidos, para auxiliar Martin, Astray e Mordek, caso necessário. Ao perceberem o número dos mercenários junto com o dos heróis os soldados de Takhisis decidiram que não valia a pena o risco de um embate. Afinal, eles eram apenas uma patrulha que já havia completado sua tarefa e conseguido as informações de que precisavam. Agora era hora de voltar a seu comandante. Recuaram, para o alívio de todos.

Quando o grupo chegou em seguida a Vogler, Ryushi, Rhimarim, Archimond e Becklin já estavam lá. Raven Uth Vogler, a prefeita, queria saber o que eles haviam descoberto. Bem como esclarecer o que Jeyev Veldrews e os outros mercenários faziam ali. Astray estava tentando organizar os pensamentos e explicar da melhor forma possível, tentando causar o mínimo de pânico, tudo aquilo vira. Porém, ele sequer teve tempo de falar.

Cascos de cavalgada foram escutados. Vindo na direção do Portão do Rio, a entrada norte da cidade, onde eles estavam, vinha um cavaleiro montado em um belo corcel trajando uma suntuosa e ameaçadora armadura negra e vermelha e com um estandarte preso em suas costas. Era claramente um arauto do exército de Takhisis.

“Ouçam ouçam todos. Habitantes da cidade de Vogler. Por ordem Belaphaion, comandante do exército vermelho e a voz de Takhisis, vocês deverão aquartelar em suas casas a partir da meio-dia de amanhã o invencível exército vermelho. Recusem, e morram. Essa é a vontade da Rainha Dragão”.

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